Não monogamia: muito além da liberdade sexual, um ato político
- Maisa Bilenki

- há 7 horas
- 6 min de leitura
Olha só, vamos entrar em um terreno que o senso comum adora tratar como "bagunça", mas que a gente sabe que é, na verdade, uma das formas mais profundas de autoconhecimento e política do afeto. Como diria a nossa saudosa Gal: "É preciso estar atento e forte". E para falar de não monogamia, a atenção tem que ser redobrada para não cairmos no papo furado do "vale tudo" liberal.
Prepare o café porque vamos dissecar esse contrato invisível que a sociedade assinou por nós sem pedir licença. Bem-vindo à não monogamia.
O que é não monogamia? (e o que não é)
Para começar o papo, precisamos limpar o terreno. A não monogamia não é apenas o oposto de fidelidade ou um eufemismo para "pulada de cerca" com autorização. Se você veio aqui esperando um manual de como sair pegando todo mundo sem responsabilidade, sinto informar que não vai sair insatisfeito. Aqui, a gente trabalha com afeto e crítica ao sistema.
Quando perguntamos o que é não monogamia, a resposta mais honesta é: é a quebra da exclusividade afetiva e sexual como regra de ouro de um relacionamento. É o reconhecimento de que o amor não é um recurso finito, como o petróleo, mas algo que pode se expandir.
Porém, essa expansão não acontece no vácuo, ela acontece dentro de uma estrutura chamada monogamia, que é muito mais que um comportamento: é um sistema de controle.
A monogamia como dogma
A monogamia que a gente conhece foi pensada por homens, brancos e proprietários para garantir a herança e o controle dos corpos femininos, isso é descrito em diversos textos, desde Marx e Engels, passando pelo fundamento do entendimento de Simone de Beauvoir sobre a inferioridade social da mulher, até autores contemporâneos que se debruçam nessas temáticas.
Leia também: como surgiu a monogamia?
É o clássico "meu, minha, meu patrimônio". Quando a gente decide trilhar o caminho da não monogamia, estamos, na verdade, dando um "visto por último" em séculos de opressão patriarcal.
Como bem pontua a maravilhosa Regina Navarro Lins em suas obras: o amor romântico, esse que a gente vê na novela das nove, é um "engodo" que nos faz acreditar que só seremos felizes se encontrarmos a nossa metade da laranja. Mas, convenhamos, ninguém aqui é fruta cortada ao meio. Somos inteiros.

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A não monogamia ética: o lugar da responsabilidade
Aqui é onde a gente separa quem quer só "festa" de quem quer construir relações sólidas. A não monogamia ética é baseada no tripé: consentimento, honestidade e responsabilidade afetiva.
Não existe não monogamia sem que todas as partes envolvidas saibam o que está acontecendo. O segredo é o veneno da monogamia, e a transparência é o antídoto. Ser ético não é seguir uma tabelinha de regras (até porque a gente foge de dogmas positivistas, certo?!), mas sim garantir que o desejo de um não passe por cima da integridade emocional do outro. É o que o pessoal chama de "combinados". E combinados mudam, porque a gente muda.
O termo guarda-chuva e suas nuances
A não monogamia é um termo guarda-chuva. Debaixo dele, tem de tudo:
Poliamor;
Relações Livres (RL);
Anarquia Relacional;
Relacionamento Aberto (polêmica).
Cada pessoa que começa a vivenciar relações fora da monogamia, explora isso de uma maneira diferente e pode dar nomes diferentes para as relações que vive. O ponto alto aqui é entender que a não monogamia é um posicionamento. Sabe aquela ideia de que você só é "não mono" se estiver em um "trisal" ou saindo com três pessoas por semana? Esquece.
Ser não monogâmico sozinho? Sim, é possível!
Aqui entra um conceito que muita gente buga: você continua sendo uma pessoa não monogâmica mesmo se estiver solteira, ou se tiver apenas um parceiro no momento, ou até nenhum. A não monogamia está na sua forma de enxergar o mundo e de não aceitar a posse como base do afeto.
Se eu acredito que meu parceiro é livre e que eu não sou dona do desejo dele, eu sou não monogâmico, mesmo que eu passe um ano sem beijar ninguém. É uma identidade política e filosófica. É sobre como você se posiciona diante da exclusividade compulsória.
Como diz Geni Núñes, uma das vozes mais potentes sobre o tema no Brasil atual, a não monogamia é uma estratégia de descolonização dos nossos afetos e tem muito menos a ver com a quantidade de pessoas que nos relacionamos que da qualidade do desapego à posse.

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A gente não está aqui para falar de "amor livre" como se fôssemos hippies num campo de margaridas (nada contra, adoraria), mas para dizer que a não monogamia é também um enfrentamento às estruturas capitalistas.
Politizar o afeto é entender que o "pessoal é político". Quem você ama, como você ama e como você se organiza para cuidar dessas pessoas é uma forma de resistência contra um mundo que quer nos ver sozinhos e produtivos.
O desafio de desaprender
O fato é que: fomos feitos para ser monogâmicos. Nossa cultura, nossas leis, nossas músicas (até aquela sofrência que a gente adora cantar no chuveiro) são monogâmicas.
A não monogamia exige um esforço de "desaprendizagem". É o que Vygotsky chamaria de mudar as nossas ferramentas culturais. A gente precisa criar novas palavras, novos gestos e novas formas de lidar com o ciúme, que, spoiler: não morre, mas deixa de ser o mestre da nossa vida. O ciúme na não monogamia vira um dado de realidade que a gente analisa com calma, e não um gatilho para o controle.
Onde fica a segurança?
Muita gente tem medo da não monogamia porque acha que vai perder a segurança (aquela base da pirâmide de Maslow). Mas isso só acontece porque a gente associa exclusividade com segurança. "Se elu só sai comigo, elu nunca vai me deixar". A verdade? É tudo ficção. A monogamia não garante permanência.
A segurança na não monogamia é construída no vínculo real, na conversa de pé de ouvido, no "olha, eu estou sentindo isso". É uma segurança muito mais sólida porque não é baseada em um contrato jurídico ou religioso, mas no desejo renovado todo dia de estar ali. É trocar o "você é meu" pelo "eu escolho estar com você hoje".
Perguntas Frequentes
1. Não monogamia é o mesmo que relacionamento aberto? Não exatamente. Relacionamento aberto costuma focar na liberdade sexual. A não monogamia é um termo mais amplo que inclui questões políticas, hierarquias de afeto e a desconstrução da estrutura monogâmica como um todo.
2. Como lidar com o ciúme? O ciúme é um sentimento como qualquer outro. Na não monogamia, em vez de usá-lo como justificativa para proibir o parceiro de algo, nós o usamos como um sinalizador para entender nossas próprias inseguranças e conversar sobre elas. Se possível, faça terapia.
3. Posso ser não monogâmico e estar sozinha? Com certeza! Não monogamia é um posicionamento político. Você pode não ter nenhum relacionamento no momento e ainda assim recusar a estrutura monogâmica.
4. É preciso contar tudo para os parceiros? A ética exige transparência sobre os riscos à saúde e sobre combinados que afetem a dinâmica do relacionamento. O nível de detalhe sobre cada encontro varia de acordo com o que foi acordado entre as partes.
5. Todo mundo pode ser não monogâmico? Teoricamente, sim. Mas exige disposição para lidar com o desconforto, muita terapia e uma vontade genuína de questionar os próprios privilégios e inseguranças. Não é para quem quer fugir de problemas, mas para quem quer problemas mais interessantes.
RESUMÃO ✨
A não monogamia é uma postura política e afetiva que questiona a exclusividade como única forma válida de se relacionar. Ela se baseia na ética, no consentimento e na desconstrução do amor possessivo. Ser não monogâmico não depende da quantidade de parceiros que você tem, mas de como você entende a liberdade do outro e a sua própria autonomia. É um caminho de desaprendizagem de séculos de doutrinação romântica e capitalista.
Vamos juntas!







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